A exposição de inauguração do Polo ITALIANORIO homenageia os italianos que viveram no Rio de Janeiro: Antonio Januzzi, Antonio Virzi, Lan, Maria Baderna, Visconti, Gianni Ratto, Teresa Cristina e os Irmãos Segreto.
Antonio Januzzi: O construtor de meio Rio de Janeiro
O Brasil recebeu, de 1870 a 1970, nove mil cidadãos da cidade de Fuscaldo, na Calábria. Um deles foi Antonio Jannuzzi, que chega ao Rio em 1874, depois de passar um ano no Uruguai, munido de vontade ferrenha e um empreendedorismo excepcional. Apenas um ano após sua chegada, nasce a Sociedade Antonio Jannuzzi & Irmão, que se tornou a maior empreiteira da reforma urbana promovida pelo prefeito Pereira Passos. A lista de construções da firma é vasta: no Centro, foram mais de 20 edifícios da nova Avenida Central, atual Av. Rio Branco, como a majestosa (e já demolida) sede do Jornal do Commercio; na Tijuca, vilas operárias; em Laranjeiras, a Residência Modesto Leal; no Flamengo, a sede da Igreja Metodista. Até mesmo o Palácio Pedro Ernesto, sede da Câmara dos Vereadores, tem a assinatura da empreiteira Jannuzzi. Em 2012, a prefeitura do Rio homenageou o italiano e inaugurou um busto em sua homenagem na esquina da Avenida Rio Branco com a Rua Sete de Setembro.
Antonio Virzi: O Gaudí dos trópicos
Dois anos após o terremoto que matou 90 mil pessoas em Messina e arrasou a economia siciliana, Antonio Virzi desambarcava no Rio. O ano era 1910 e o arquiteto trazia na bagagem, além de ótima formação obtida em Nápoles e em Milão, ousadia e criatividade. Convidado a dar aulas de arquitetura por Rodolfo Bernardelli, diretor da Escola Nacional de Belas Artes, entrou em conflito com a tradição e decidiu colocar em prática suas ideias inovadoras. A exuberância e o estilo inconfundíveis de Virzi conferiram mistério à sua arquitetura. Seu edifício mais famoso foi erguido em 1916: era a sede da famosa fábrica Elixir de Nogueira, já demolida, onde se produzia o popular
elixir de inhame, “curador de todos os males”, de frente para a Baía de Guanabara. As esculturas de corpos contorcidos e figuras de aspecto sobrenatural surpreendiam quem passava pela Rua da Glória. A casa dos Smith Vasconcelos, em Copacabana, e o cinema América, na Praça Saens Pena, na Tijuca, são outras obras ecléticas que só podem ser apreciadas em fotos de época.
Lan: Alma carioca
Foi um italiano o caricaturista que mais soube valorizar as curvas da mulher brasileira — e, em especial, da mulata carioca. Lanfranco Aldo Ricardo Vaselli Cortellini Rossi viveu em Montevidéu, Buenos Aires e em São Paulo antes de adotar a Cidade Maravilhosa como lar. Depois de atuar na
imprensa argentina, passou a trabalhar para o Última Hora, importante diário carioca. Um dos fundadores da filial carioca da agência de notícias da Revolução Cubana Prensa Latina e autor de charges de cunho político, preferiu ficar em Roma e Paris entre 1964 e 1967. De volta ao Rio, o italiano portelense e flamenguista chorou de emoção ao rever a Baía de Guanabara. Aos 91 anos, já
recebeu a condecoração Grande Ufficiale dell’Ordine della Stella della Solidarietà Italiana, em 2005, o título de Cidadão Honorário do Rio de Janeiro e a medalha Pedro Ernesto.
Maria Baderna: A dançarina ousada
Quando a bailarina do Teatro Alla Scala de Milão chegou ao Brasil aos 21 anos, certamente não imaginava que seu sobrenome daria origem a um novo vocábulo da Língua Portuguesa. Corria o ano de 1849 e a jovem desembarcava na capital brasileira como exilada por perseguição política,
evido a ligações com os carbonários. Marietta Maria Baderna rapidamente conquistou o público e a crítica suas apresentações no Teatro São Pedro de Alcântara. Logo se interessou em conhecer de perto as danças afro-brasileiras, relatadas pelo maestro regente do Teatro, Giacchino Giannini. A piacentina foi conhecer de perto as celebrações e os requebros de negros e mulatos e cometeu ousadia maior: levou o batuque e o lundu — considerados demasiado sensuais pela elite da época — para os palcos. Tal atitude, aliada ao seu hábito de protestar contra empresários mau pagadores, valeu-lhe a antipatia dos conservadores. Escandalizou até a imperatriz Teresa Cristina e dividiu o povo carioca em dois grupos: os baderneiros, que estavam a seu favor, e os antibaderneiros e
moralistas, que tentavam boicotá-la.
Eliseo Visconti: O primeiro designer do Brasil
Um dos mais importantes artistas do país no século XX, Eliseo d’Angelo Visconti nasceu em 1866 e chegou ainda criança ao Brasil. A família instalou-se em uma fazenda de Além Paraíba (MG), onde os proprietários, percebendo seu talento para a pintura, o estimulam aos estudos. Teve como professores Henrique Bernardelli e Victor Meirelles na Academia Imperial de Belas Artes. Em 1901, realizou sua primeira exposição individual na Escola Nacional de Belas Artes, com 60 quadros e 28 trabalhos de arte decorativa. Em um passeio pelos edifícios históricos do centro do Rio, podemos apreciar suas obras mais importantes: pinturas na Biblioteca Nacional, peças decorativas no Palácio Tiradentes, sede da Assembleia Legislativa, um tríptico em homenagem à cidade e ao médico Osvaldo Cruz no Palácio Pedro Ernesto, sede da Câmara Municipal, e, é claro, a bela decoração do Theatro Municipal, onde são de sua autoria todas as pinturas da sala de espetáculos. A influência da arte impressionista é uma de suas marcas. A partir de 1920, passa a criar um estilo próprio: o impressionismo viscontiniano — iluminado pela atmosfera tropical da capital brasileira.
Gianni Ratto: O cabeça de uma geração
O fundador do Piccolo Teatro de Milão já gozava de prestígio na Itália quando chegou ao Brasil em 1954 a convite de Maria Della Costa para dirigir em São Paulo O Canto da Cotovia, que logo conquistou público, crítica e o Prêmio Saci. A transferência para o Rio, após temporadas de sucesso na capital paulista, inaugura seu período mais revolucionário. Na cidade, funda o Teatro dos Sete, em 1959, ao lado de Fernando Torres, Fernanda Montenegro, Ítalo Rossi e Sergio Britto, para o qual dirigiu peças que marcaram o teatro brasileiro, como O Mambembe (1959), resgatando a obra de Arthur Azevedo e recriando com precisão ambientes do Rio Antigo. Colaborou com o Grupo Opinião e dirigiu Se Correr o Bicho Pega, se Ficar o Bicho Come, de Oduvaldo Vianna Filho e Ferreira Gullar (1966), símbolo de resistência à ditadura. A repressão do regime acabaria pondo fim de forma brusca ao seu projeto mais ambicioso: o Centro Cultural Teatro Novo, financiado pelo empresário Paulo Ferraz. Com corpo de baile e orquestra sinfônica, o local oferecia atividades de cunho integral de formação para artistas, com cursos, oficinas de dramaturgia e montagem de espetáculos. Em 2003, dois anos antes de falecer, recebeu o Prêmio Shell por sua contribuição para o teatro brasileiro.
Teresa Cristina de Bourbon: A madrinha da colônia italiana
Incentivadora e financiadora de artistas, escritores, cientistas, artesãos e músicos italianos que atravessaram o oceano rumo ao Rio de Janeiro no século XIX, a consorte de D. Pedro II nasceu em Nápoles em 1822 como princesa do Reino das Duas Sicílias. Desembarcou em solo brasileiro em 1843 se tornou “a mãe dos brasileiros”. No Rio, sede do Império, manteve sua paixão pela arqueologia, graças à qual o Museu Nacional da UFRJ, conhecido como Museu da Quinta da Boa Vista, residência da família real brasileira, detém a coleção greco-romana mais importante da América do Sul, que inclui peças de Veio, Pompeia e Herculano. O intercâmbio mantido pela nobre da Casa de Bourbon levou a Roma e a Modena ricas peças do artesanato indígena brasileiro. Retratada tradicionalmente como uma mulher silenciosa e de certa forma apagada, que viveu à sombra do marido, na verdade, promoveu a aproximação entre Brasil e Itália no campo das artes e da ciência. Embora D.Pedro II quisesse enviar Carlos Gomes para a Alemanha de Wagner, a vontade de Teresa Cristina prevaleceu. O maestro brasileiro estudou em Milão com Giuseppe Verdi e se consagrou no Teatro Alla Scala com a apresentação de O Guarani.
Irmãos Segreto: Cinema, diversão e jornal
Seis anos antes da queda do Império do Brasil, dois irmãos ainda menores de idade partem de uma pequena cidade do Cilento, rumo ao Rio de Janeiro. Pasquale, com 15 anos, e Gaetano, aos 17, desembarcam na capital brasileira sem dinheiro algum. Os primeiros anos foram difíceis: ambos estiveram na prisão diversas meses. Pasquale tornou-se conhecedor dos segredos da malandragem carioca, que lhe serviu de trampolim para se tornar um empresário de sucesso. Envolveu-se com o jogo do bicho e, logo após a Abolição da Escravatura, era de dois quiosques e de uma sala de bilhar na Rua Sete de Setembro. Com o advento da República, seu império crescia, com cafés-concerto, cervejarias e sessões populares do teatro de revista: manteve o High Life Club, na Glória; comprou os teatros Maison Moderne, Carlos Gomes e São José; e assumiu a gestão do Moulin Rouge. O italiano fez fortuna com a venda do mito de Paris, fórmula garantida de sucesso.
Em 1897, os Segreto abrem, na Rua do Ouvidor, o Salão de Novidades de Paris no Rio, a primeira sala de cinema do Brasil, frequentada até pelo presidente Prudente de Morais. O irmão Alfonso entra para a história ao registrar as primeiras imagens em movimento no país com um cinematógrafo adquirido em Nova York a bordo de um navio. O filme recebeu o título de Uma vista da Baia de Guanabara e a data era 19 de junho — que se tornaria o Dia do Cinema Brasileiro. A firma de Segreto realizou mais de 60 filmes em apenas três anos, com muitos registros da vida social no Rio. Em 1920, o cortejo fúnebre de Pasquale Segreto arrastou uma multidão pelas ruas do Rio, enquanto os jornais locais destacavam a morte de um “fabricante de alegria”.
Conhecido como o dono da Praça Tiradentes, Pasquale reunia diversos negócios ligados ao entretenimento na região, como a Maison Moderne, onde ele exibia ao público carioca atrações já existentes na Europa, como carrossel, tiro ao alvo, fotografia, roda-gigante, máquina caça-níqueis e exposição de animais enjaulados.
Encaregado pela “empreza Paschoal Segreto”, Alfonso realizou diversos filmes de acontecimentos políticos e sociais no Rio, como o desembarque do presidente Prudente de Morais e sua comitiva no Arsenal da Marinha. Devido à sua independência e às suas convicções anarquistas, acaba se desentendendo com Pasquale, que prefere manter boas relações com a elite brasileira, e retorna à Itália.








